Bastará observar atentamente como uma pessoa respira,
para saber qual o estado emocional em que se encontra.
André Van Lysebeth
A respiração é uma das funções vitais do nosso organismo e é crucial para o nosso bem estar e qualidade de vida.
Quando nascemos executamos uma primeira inspiração e, assim, despertamos para uma existência fora do ventre materno. Quando chega ao término exalamos uma última vez e partimos para outros planos. Ela marca o início e o fim. E, no entretanto, marca o ritmo da nossa vida.
A maioria das pessoas respira de forma superficial, utilizando apenas uma ínfima parte da capacidade pulmonar, ignorando que a cada estado emocional corresponde um ritmo respiratório e que ao manipular o ritmo respiratório conseguimos sublimar as emoções, interferir positivamente no desempenho profissional, nas relações sociais, nas relações afectivas e na qualidade de vida.
Uma cadência profunda e ritmada demonstra satisfação, segurança, serenidade, enquanto que uma respiração curta e rápida, denota ansiedade, insegurança ou medo. Respiração, mente e emoções interagem mutuamente.
A respiração é o único acto vital inconsciente ao qual podemos ter acesso e manipular de imediato. É impossível dar ordens directas ao fígado, estômago ou baço, mas podemos a qualquer momento regular a respiração.
A prática milenar de exercícios respiratórios, desenvolvida, empiricamente, pelos sábios da antiguidade, permite ir mais além e tomar consciência de que a energia vital, que compõe o nosso corpo, é a mesma que configura e movimenta o universo. Esta prática promove o autoconhecimento, amplia a percepção da consciência e actua sobre o corpo emocional, desenvolvendo a força de vontade, a concentração e aumentando a consciência corporal.
Vejamos como actua esta ciência empírica:
1. Respiração completa composta por três fases:
a. Abdominal – respiração diafragmática que se processa na parte baixa dos pulmões e equivale a cerca de 60% do volume total de ar que pode ser assimilado. Quanto mais amplo for o movimento do diafragma, mais ampla será a respiração baixa. Estados de tensão, ansiedade, angústia ou depressão, encurtam essa movimentação do diafragma, tornando a respiração superficial e limitando a oxigenação do corpo. Basta mudar para uma respiração ampla e lenta para eliminar essas condições emocionais.
b. Intercostal – respiração que utiliza a região média ou intercostal da caixa toráxica. Movimenta a estrutura ósseo-muscular do tórax para os lados, com o trabalho do diafragma. Equivale a aproximadamente 30% do volume de ar que pode ser inspirado de uma só vez. Ao ampliar e dominar este movimento promove-se uma maior expansão lateral do tórax. É importante dominar esta respiração para poder utilizar a total capacidade dos pulmões.
c. Alta – respiração que se processa na região clavicular, na parte superior do tórax. A maioria das pessoas respira desta forma. É equivalente a 10% do volume total de ar inalado. Quando usada exclusivamente exige um grande esforço na captação de ar. Respirar apenas com a parte alta dos pulmões está relacionado com estados de nervosismo e angústia ou stress excessivo, possivelmente somatizados na forma de tensão muscular no abdómen e no tronco.
A prática de exercícios respiratórios promove a respiração completa, utilizando a parte baixa, média e alta dos pulmões, estimulando todo o potencial e capacidade dos mesmos. Proporcionando uma maior oxigenação e produção de endorfinas e consequentemente uma sensação única de bem estar, leveza e vitalidade.
A respiração completa é a manifestação da personalidade dinâmica, livre, realizadora e consciente. Todo o aparelho respiratório funciona com amplitude e assimila uma quantidade maior de energia.
2. Energia e força vital
Todo o Universo é composto na sua essência de energia. Tudo o que existe é energia e tudo o que se move manifesta energia. Ela enche e move tudo, é inesgotável e infinita. Uma das mais possantes e incompreensíveis manifestações da natureza.
A energia cósmica abrange todas as partículas atómicas e manifesta-se nas forças elementares da natureza através da luz, calor, magnetismo, electricidade, gravidade.
No plano humano, essa energia, é a força vital que forma o nosso corpo tangível, regulador de todas as funções orgânicas e físicas. O volume de energia biológica, bioenergia ou força vital, no corpo, determina o grau de vitalidade de cada um de nós.
Ela está presente no ar, sem ser oxigénio, azoto, nem qualquer outro constituinte químico da atmosfera. Existe na comida, na água e na luz solar, sem ser vitamina, calor, ou raios solares. O ar, a água, os alimentos e a luz transportam a bioenergia, da qual depende toda a vida animal e vegetal. Sem ela nenhuma forma de vida é possível.
A fonte mais importante de energia vital é a atmosfera, mas encontra-se também nos alimentos e na água. O Sol, os raios cósmicos e as massas de água em movimento e evaporação são os factores principais que carregam o ar de energia.
Os órgãos de absorção de bioenergia são a pele, a língua, nariz e alvéolos pulmonares. Flui no Homem pelos canais da fisiologia subtil, os canais energéticos. Uma imensa e intrincada malha de correntes energéticas que vivificam o corpo físico. O organismo é um acumulador, transformador de força vital.
Na antiguidade, os sábios aperceberam-se dessa energia e desenvolveram exercícios que permitem aumentar a captação desse fluxo, de o acumular, dirigir e expandir, conforme a sua vontade. Conseguindo, assim, um domínio consciente das energias vitais no nosso corpo.
3. Retenção, ritmo respiratório e mentalização
Existe uma relação muito estreita entre ritmos respiratórios e estados de consciência. A respiração reflecte todas as variações do fluxo emocional ou mental. Ao interferirmos no ritmo respiratório, de forma adequada, podemos criar situações favoráveis ou ainda reverter situações que não sejam do nosso agrado, através do domínio desse mecanismo.
O ritmo é uma propriedade fundamental do cosmos. No decorrer da evolução toda a vida terrestre foi modelada por ritmos. O organismo humano é muito sensível ao mesmo. O ritmo das pulsações do coração e da respiração são os mais evidentes e importantes e são estreitamente solidários entre si. Ao dominar o ritmo respiratório influenciamos o ritmo cardíaco, ligado ao ritmo fundamental de todo o organismo. Assim, ao modificar estes ritmos fundamentais é possível influenciar todas as funções fisiológicas e psicológicas do ser humano.
Uma respiração consciente e ritmada absorve o mental, dando uma sensação de serenidade, já que a mente passa a ocupar-se unicamente dessa função. Melhora a capacidade de concentração e aumenta a energia.
A retenção do ar permite assimilar e direccionar a energia vital, através do pensamento. Retenções curtas permitem, ao prolongar o tempo de contacto do ar com os pulmões, uma melhor utilização do ar, aumentando a absorção do oxigénio.
As retenções estimulam a respiração celular, intensificam a produção de bioenergia e das trocas de energia em todo o corpo, agindo poderosamente sobre o sistema neurovegetativo. Durante a retenção as pulsações cardíacas abrandam, travando a circulação sanguínea, o que economiza o oxigénio trazido pelo sangue e activa a combustão intra-celular, libertando energia. Esse fenómeno celular, de auto preservação, estimula os processos normais e vitais em todas as células do organismo. A prática regular assegura um bom dinamismo fisiológico, melhora o tónus vital e permite resistir ao stress e todas as experiências de vida.
Utilizam-se técnicas de mentalização e concentração para desenvolver, unificar e direccionar o potencial da mente que, de modo geral, está disperso. Esta influencia a fixação de energia e pode aumentar a sua absorção e circulação no organismo.
Durante a inspiração mentalizamos/visualizamos a captação de energia pelas narinas, sob a forma de energia pura. Na retenção visualizamos o acumular de energia e sua distribuição. Na expiração dirige-se o fluxo de energia por todo o organismo ou para uma região à escolha.
4. Posições e gestos
São utilizados para a prática gestos e posições físicas específicas que tem por objectivo isolar o corpo de influências telúricas, fechar circuitos electromagnéticos e favorecer a circulação de energia, minimizando a dispersão ou perda de energia.
5. Exercícios de hiperoxigenação
O cérebro é o maior consumidor de oxigénio no corpo. Ao executar exercícios de hiperoxigenação favorecemos a irrigação cerebral, pela aceleração do fluxo sanguíneo. Constitui um tónico cerebral puro e único.
Produzem uma oxigenação intensa e é altamente energizante e vitalizante. Elimina o cansaço e a depressão em poucos instantes. Ao oxigenar o organismo, revitaliza os tecidos e aquece o corpo. No plano subtil, provoca um aumento relevante da força de vontade e da consciência de si próprio.
Inspirar tanto significa trazer ar para os pulmões, como encher-se de inspiração, de entusiasmo criador, artístico. E energia significa capacidade de produzir actividade ou trabalho, eficácia, poder de acção, força. Isso não ocorre por acaso. A cada inspiração estamos a captar força vital, poder e energia. Essa energia universal, cósmica, criadora de vida.
Nota: Se é leigo na matéria, para sua segurança, não pratique exercícios respiratórios sem a orientação de um instrutor formado.
Estão contra indicados os respiratórios com retenção ou ritmo a todas as pessoas portadoras de problemas cardíacos, pressão alta e saúde abalada em geral.
Bibliografia:
Tratado de Yôga – DeRose
Respiração Total! - Rosângela de Castro
Pranayama, a dinâmica da respiração - André Van Lysebeth